Os estragos das aulas suspensas

José Pastore 11/10/2020

Voltar às aulas é uma das decisões mais difíceis para pais, professores, funcionários e alunos. Sinceramente, não sei o que dizer. Mas, sobre as consequências da paralisia das escolas, arrisco alguns comentários. Isso porque falhas na aprendizagem dificultam a entrada no mercado de trabalho, influenciam os salários dos ex-alunos, prejudicam a produtividade e o próprio PIB do país. Ou seja, perder um ano na vida escolar tem efeito gigantesco no futuro das pessoas e dos países. É isso que diz a teoria do capital humano.

Mas eu mesmo fiquei assustado com os resultados de uma pesquisa nesse campo que procurou quantificar o efeito do fechamento das escolas devido à covid-19 em 192 países que atingiu 1,5 bilhão de alunos. O assunto já havia sido estudo em outras pandemias. Os prejuízos da paralisia das escolas ocorreram nos anos seguintes e se prolongaram por muitas décadas na vida profissional das pessoas e na economia dos países.

A peste negra (1347-1352), que matou cerca de 75 milhões de pessoas, devastou muitas cidades e fez diminuir a força de trabalho agrícola por várias décadas, ocasionando falta de mão de obra por muitos anos. A gripe espanhola (1918-1920) ceifou 100 milhões de pessoas e afetou a atividade econômica por várias décadas. A gripe Sars (2003) reduziu o PIB do Reino Unido, França, Bélgica e Holanda entre 0,5% e 2% do PIB naquele ano (George Psacharopoulos e colaboradores, Lost wages: the covid-19 cost of school closures, Bonn: Institute of Labor Economics, 2020).

Os autores desse estudo citam simulação que considera as perdas em 157 países que paralisaram as escolas do ensino fundamental pelo período de 5 a 7 meses. Os resultados são assustadores. Os alunos terão redução no salário em torno de US$ 1.400 por ano e, no mínimo, US$ 25 mil em sua vida profissional. Para a população mundial de estudantes, a estimativa da referida perda de aprendizagem chegará à devastadora cifra de US$ 15 trilhões.

Quando se levam em conta os grandes agregados de pessoas, esses números se tornam estonteantes. Usando outra metodologia, Ricardo Paes de Barros apresenta resultados igualmente preocupantes: a evasão escolar do ensino médio no Brasil provoca perda de US$ 40 bilhões por ano, o que daria cerca de US$ 1,2 trilhão durante uma vida profissional de 30 anos.

As perdas sempre são maiores nos países de baixa qualidade da educação. Em qualquer nação, o que importa é o que as crianças e jovens apreendem. Segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2019, a aprendizagem dos estudantes brasileiros decai rapidamente à medida que eles avançam nas primeiras cinco séries do ensino fundamental I. O mesmo ocorre no fundamental II. Até as escolas particulares têm desempenho aquém da meta de 7,1. As escolas públicas estaduais atingem só 23% da meta fixada para aquele ano. No ensino médio, as escolas brasileiras têm média de 4,2 enquanto a meta é 5.

Quando se considera que as crianças e jovens brasileiros perderam mais de seis meses de aula em 2020, é evidente que a perda de renda, avanços na carreira, produtividade e PIB será monstruosa nos próximos anos e ao longo das próximas décadas. As estimativas não são sacrossantas, convenhamos. Mas, sem dúvida, o estrago da suspensão das aulas terá prolongado impacto na produção, produtividade, emprego e renda dos brasileiros.

Não estou criticando a suspensão das aulas, pois essa decisão buscou a preservação da saúde de todos. Levanto apenas a necessidade de esforços redobrados para compensar, ainda que parcialmente, o estrago mencionado. Nesse, como em outros campos, teremos de multiplicar nossas energias por muitos e muitos anos.

JOSÉ PASTORE é Professor da Universidade de São Paulo e membro da Academia Paulista de Letras, é presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomercio-SP


Fonte: Correio Brasiliense