Causas irrefutáveis das queimadas do Pantanal

Euclides Ribeiro S. Junior 21/09/2020

Nesta segunda-feira (21) celebramos o Dia Mundial da Árvore envoltos por um sentimento de profundo pesar em relação ao Pantanal. Nos primeiros sete meses deste ano, o principal rio da região atingiu o menor nível em quase cinco décadas; a chuva escassa já representa uma das maiores secas da nossa história recente; o desmatamento cresceu e os incêndios devastaram mais de dois milhões de hectares, tamanho referente a 10 vezes as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro juntas. É o pior período de queimadas que temos registro desde o fim dos anos 90 somado a uma das piores secas dos últimos 47 anos.

Um trágico balanço que talvez nunca chegue a ser de fato fechado.  Até porque, se é possível mensurar prejuízos econômicos e financeiros decorrentes da destruição de pastagens, lavouras de subsistência e de bens, como cercas e currais, a dizimação da fauna calcinada pelas labaredas representa um dano incalculável para a natureza.

O drama da maior série de queimadas no Pantanal pode ser visto bem longe das matas e várzeas da região. No centro de Cuiabá, as máscaras de proteção ao Covid não evitam o cheiro forte da nuvem cinzenta sobre a cidade. A fumaça dos incêndios no bioma e na Amazônia inclusive já começou a chegar aos Estados do Sudeste e do Sul.

A grande questão é que o Pantanal nunca é colocado em listas de prioridades para a conservação da natureza, tanto no nosso país como no mundo. E isso traz consequências drásticas. Esse ecossistema é um dos menos pesquisados no Brasil - Amazônia e Mata Atlântica chegam a ter mais de 1000 vezes o número de referências em artigos. Não existe nenhuma lei que rege especificamente o Pantanal (como por exemplo Lei da Mata Atlântica) e nem um fundo para a conservação da região (como o Fundo Amazônia). O Pantanal é um bioma ignorado. E o fogo nos colocou sob um holofote de manchetes trágicas que desnudaram essa dinâmica de abandono político e pouco interesse intelectual.

Porém, não há dúvida de que o inventário da tragédia que transforma em cinzas boa parte do rico e frágil bioma pantaneiro impõe sobre a nossa geração um irrefutável ônus. Ainda que não como culpados diretos pelo desastre ambiental, mas como fiéis depositários de um dos mais ricos e delicados patrimônios naturais da Terra.

É com a perspectiva dessa responsabilidade ética geracional que devemos encarar a tragédia atual como situação-limite, uma dramática e contundente advertência de que devemos fazer mais, e já, para evitar a recorrência de desastres como este. Se o bioma Pantanal, como observamos, não se deixa repartir por uma linha divisória imaginária, temos de pensar soluções comuns para problemas e desafios igualmente comuns para toda a bacia. E nenhum desses desafios é mais urgente do que a prevenção contínua de incêndios devastadores como o que vivemos hoje.

Euclides Ribeiro S. Junior, membro da Comissão de Recuperação Judicial da OAB /MT, sócio da ERS Advocacia

Fonte: Folha de SP